Alcides Catota e Roberto Neppas
Só é índio quem opta por sê-lo, assumindo conscientemente o projeto de vida de seu povo. Com esta identidade-alteridade entramos em relacionamento com os que não são indígenas, em busca de uma solidariedade profunda.
Nós indígenas temos identidade: somos nós. Mas para a sociedade dominante nós somos os “outros”, os diferentes, os que não estão de acordo com ela, os que resistem: os não integrados, os marginalizados, os que cantam fora do coro. Agindo assim, os demais não olham nosso rosto e coração, olham para si mesmos e seus complexos e, por isso, nos rejeitam por sermos diferentes.
Nós, índios de hoje, somos herdeiros de sangue dos primeiros habitantes deste continente. Estão vivos em nós os genes e características biológicas da primeira humanidade desta terra. Somos filhos e filhas desta Mãe Terra, temos sua cor. Seu sabor e sua dor estão nas nossas entranhas.
Nós indígenas somos povos possuidores de incalculáveis riquezas culturais, traços vivos de uma cultura milenar, e o substrato mais firme da identidade pluricultural e pluriétnica do continente.
Nós índios temos um projeto alternativo de vida. Junto à realidade de pobreza, miséria e discriminação a que temos sido submetidos, existe o fato de que somos povos que trazem em suas utopias culturais e religiosas projetos de vida que, tendo sido experimentados no passado, podem ser vividos no futuro, não como restauração de um passado perdido, mas como construção de um futuro desejado a partir dos ideais próprios. Nossa projeção do futuro são utopias humanas e culturais que podem ser compartilhadas com os demais pobres da sociedade. Estas utopias são as que suscitam otimismo em nós e nos companheiros na caminhada, apesar das dificuldades. Somos pobres em espírito, isto é, materialmente pobres mas com um espírito forte, capaz de recriar as coisas.
Diante de tudo isso, ser índio hoje pode ser uma realidade que nos caiu em cima como uma doença ou pecado, isto é, como algo negativo do qual quiséssemos nos libertar o quanto antes. Por outro lado, pode ser uma opção de vida que nos dá identidade pessoal e coletiva. Por isso, ser índio se torna consciência de classe e consciência étnica de povo que tem e luta por seu projeto de futuro, torna-se bandeira para libertar-se e para fazer dos sonhos e utopias herdados dos antepassados a realidade nova que o mundo precisa. Afinal:
Outro mundo é possível, e nós já começamos! |