A herança dos antepassados e a força de Deus são garantia da nossa vitória.
Este foi o tema e lema do sexto encontro nacional de Teologia Índia em Luziânia em dezembro de 2008. Entre indígenas e missionários, mais de 70 pessoas de todo Brasil participaram representando 25 povos diferentes. O encontro foi marcado por fortes momentos de oração e rituais que refletiram a grande diversidade e riqueza espiritual e teológica dos povos indígenas no Brasil. Nestas celebrações, gestos e orações comungamos experiências profundas do divino em nossa vida.
NOSSOS PROBLEMAS E RESPOSTAS
Em outros momentos refletimos nossas realidades. Muitos participantes já tinham refletido o tema nas suas aldeias e todos tinham histórias a contar. Os problemas mais citados foram: A luta pela terra, violência, droga, álcool, politicagem, prostituição, juventude desorientada, famílias desunidas, herança cultural não cultivada, saúde e educação precárias e pouco específicas, invasões, jovens afastados das tradições. A dura realidade de alguns parentes causou preocupação, tristeza e até raiva. Em resposta a esses problemas e dificuldades foi destacada a importância da união do povo, a força dos movimentos indígenas e de nossos aliados que pedem que a Constituição seja cumprida e a justiça seja feita. Destacou-se especialmente a força da fé e do rito capazes de obter resultados sem uso da violência.
FILMES DE PARENTES
Para ajudar nossa reflexão assistimos filmes de povos indígenas de outros países (Nova Zelândia, Estados Unidos) que enfrentam problemas semelhantes aos nossos. Analisamos como estes povos ou alguma pessoa sábia entre eles procuraram reverter a situação. Nos dois casos que vimos a chave estava no respeito à Mãe Terra e aos irmãos e na recuperação dos valores que nossos antepassados nos ensinaram. O primeiro filme foi: Encantadora de Baleias: Porém, como o povo Maori mostrou,a solução não está na simples volta ao passado, tampouco em trazer o passado ao presente sem atualizá-lo. Uma menina ajudou seu povo atualizar a tradição, realizar seu ritual e revigorar, pela inovação, a herança dos antepassados. O Guardião dos Sonhos:O outro filme que assistimos continha dez mitos que um sábio contava para seu neto que estava muito revoltado com sua vida e muito afastado das tradições de seu povo. Ao identificar-se com as personagens nos mitos do avô, o rapaz encontrou o caminho de volta e tornou-se também um contador de histórias. Neste filme, além da história do rapaz, tivemos os dez mitos que expressaram tantas verdades para nós e nos lembravam de mitos de nossos povos também. Ainda assistimos filmes de nossas comunidades que nós trouxemos para partilhar com os parentes. Uns contavam alguma dificuldade, ou descreveram um evento, outro mostrou uma festa ou ritual. Tinha dos Xukuru, Pankararu, Guarani, Karipuna, Anacé, Guajajara, Tembé, Yanomami.
RESPOSTAS NAS TRADIÇÕES:
Diante de nossas realidades e ajudados pelo que vimos nos filmes, nos perguntamos: Como a história e os mitos dos antepassados nos ajudam a superar nossos problemas? Em grupos e todos juntos conversamos muito sobre isso. Como foi bom! Percebemos que nossa história e os mitos que ensinaram nossos antigos nos fortalecem, nos ensinam respeito e a igualdade, são sabedoria para repassar aos nossos filhos, valorizam nossa cultura, nossos ritos e orações. Tudo isso nos ajuda no dia a dia de nossas vidas e lutas. Os filmes nos incentivaram a olhar em frente, a retomar nossa terra que nos foi tirada, a reconquistar o nosso espaço na sociedade, a restituir sua identidade aos jovens que estão procurando suas raízes. O sangue derramado pelos nossos lideres também é nossa herança. Ele nos fortifica e nos faz superar as dificuldades, fortalece nossa fé nos encantados, firma nossa identidade, nossa organização sem nos fazer baixar a cabeça. Dá-nos calma e paciência, resistência e persistência contra madeireiros, fazendeiros, pescadores ilegais....
CONSIDERAÇÕES FINAIS: algumas palavras dos parentes:
Nós povos indígenas não somos uma lenda, somos uma realidade nacional. Nós podemos ter duas culturas, mas manter os valores da tradição e nossa identidade diferenciada. A história nos faz lembrar o passado, viver o presente e planejar o futuro. Muito peso e expectativa estão sendo colocados nos ombros da juventude, mas na realidade cada qual terá que fazer sua parte. Ninguém escapa de sua responsabilidade. Idoso é aquele que fatiga com sua idade, ancião é aquele que tem sabedoria e a põe o serviço dos demais. No passado até a igreja dizia que éramos pagãos e que éramos sem cultura, sem língua e sem religião; agora as coisas mudaram. Se não, ela (a Igreja) não estaria aqui conosco lado a lado neste encontro. Para muitos de nós, nossa prática da fé católica faz parte de nossas tradições, de nossa herança dos antepassados. A história na Bíblia junto com as histórias de nossos velhos nos orienta e nos ensinam viver. Os rituais na igreja junto com os rituais de nossos antepassados nos animam e dão força. Por isso nossa espiritualidade é tão rica, pois ela puxa de diversas fontes.
POVO KAMBIWÁ Meu povo, vamos enfrentar com coragem até o fim, não vamos fugir da batalha justamente na hora em que a nossa participação se torna cada vez mais necessária.
POVO TEMBÉ Jovens, precisam dar atenção aos poucos velhos que ainda restam porque se não como poderemos manter os nossos costumes e tradições, pinturas, artesanato, cânticos e lendas?
POVO XUKURU DE ORORUBA Nós índios podemos conviver com culturas diferentes desde que com isto não abandonemos as nossas tradições e costumes que procuramos sempre fazendo os nossos rituais junto com o catolicismo. Afinal, adoramos o mesmo Deus, nosso Senhor Jesus Cristo.
Procuramos não nos prender ao consumismo dos brancos e respeitar sempre os nossos anciãos porque é deles que vem o conhecimento como os nossos antepassados nos deixaram. Os mais velhos são as raízes que sustentam a arvore da vida e os nossos jovens são as sementes do nosso futuro.
POVOS XAVANTE, GUARANI E KAIOWÁ Tem que amar se enraizando no que nossos antepassados viveram, sua religião; essa é a nossa herança e nossa fé
POVO TRUKÁ Continuamos com fé em Deus que nos avançaremos e seremos vitoriosos. Para frente Truká. Esses são os meus sonhos.
POVO ARAPIUNS E TUPINAMBA Em nome do pai Tupa, da mãe Terra que essa possa tocar em seus corações. Que não nos deixemos iludir pelas coisas que os não índios nos oferecem.
POVO YANOMAMI Omama, nosso criador, continua morando conosco e com ele preparamos o nosso futuro.
POVO KARIPUNA Devemos dar mais valor à mãe natureza, à nossa cultura e à nossa tradição. Sem tudo isso, nós não somos nada.
POVO GALIBI MARWORNO Vamos ser firmes na cultura, nas crenças, na religião e valorizar mas a herança dos antepassados.
POVOS OROMON, KAXARARI E CANOÉ A beleza e sabedoria milenar do nosso povo é que nos fortalece e nos da animo para continuar a nossa luta que é árdua, porém fundamental para que possamos continuar existindo como povos iguais e diferentes dos não índios, iguais porque somos capazes, inteligentes, humanos; diferentes porque temos uma outra cultura e língua própria.
POVO PANKARARU Que a Jurema Sagrada nos dê o conforto e fortaleza nas horas difíceis das nossas vidas.
POVO GUAJAJARA Mesmo com muitas dificuldades que a nação Guajajara vem sofrendo, nunca devemos desistir de lutar pelos nossos direitos e sempre seguir de cabeça erguida para mostrar que nós somos capazes de lutar pelos nossos direitos.
POVO KRENYE TIMBIRA Nunca devemos desistir de lutar e sempre confiamos em nosso pai. Vamos buscar nossos direitos com a força dos antepassados.
POVO MAKUXI Como uma grande árvore foi queimada, mas como ela brota com as folhagens verdes e flores, brotaremos verde e assim daremos muitos frutos e vamos encher a nossa terra com a nossa descendência com mais garra e coragem.
Avante com alegria sem fadiga!
Dos missionários A diversidade faz reconhecer que há vida na história dos outros, porque cada povo revela um traço único do rosto de Deus.
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